farol de alexandria
meu precioso momento
ali estiveste comigo
embrulhaste o mais simples sentimento
num céu de trigo
o teu abraço...um passo para o infinito
mulher de paixões
raio de luz que gosta de brincar
no arco-íris dos corações
onde juntos estivemos a desenhar
o teu abraço...um passo para o infinito
esquecimento interrompido
adormeceste um diamante ferido
noite azul como o teu olhar
que me fez feliz
que me fez acreditar
o teu abraço...um passo para o infinito
tudo vai ficar bem
a felicidade desenhou o teu sorriso
amizade onde repousei
onde sonhei com um mundo igual ao teu rosto bonito
o teu abraço...um passo para o infinito
Vitorino Coragem
inteiros
...nós não somos partidos, somos inteiros...
Sábado, Maio 29, 2004
Terça-feira, Maio 25, 2004
a lua dorme no meu ombro
sentir...
com a ilusão da diferença
domir...
no interior da tua crença
encontro-me neste mundo de cor
o sabor da tua pele perfumada
dá esperança a esta triste flor
lágrima de sangue derramada
palavras soltas ao vento
má postura calibrada
foge do sol através do fogo lento
a árvore da infância abraçada
quero amar e morrer embriagado
quero estar aqui para regressar aos teus braços
quero reinventar o amor para deixar de ser poeta
quero mentir a verdade da descoberta
de que o nosso amor está protegido pelo tempo
de que não me vou embora
de que tu aqui não ficarás
de que esta noite será para sempre
os nosso corpos eternamente sós
Vitorino Coragem
saudade de mim
sinto falta da tua falta
eu morri...
senti...
à muito tempo atrás
minto alto o argumento da tua ausência
espero por ti um pouco mais
outro olhar...
uma flor a mais
um tímido passo...
um suspiro...
dá-me um sinal
plantei no meu pensamento os teus sinais
eles são demais...
demais...
demais...
Vitorino Coragem
amor perfeito
neste porto de abrigo
onde o sol se esconde do dia
as ideias brotam ao olhar para o teu olhar
lágrima azul, mundo submerso
criaste o teu próprio universo
de chuva, rostos, cor
para te refugiares em ti própria
fugires da felicidade
para te fechares no final do dia
como uma flor
com saudades de um amor nunca vivido
Vitorino Coragem
deus tem só quatro letras
queria ser deus outra vez
transformar o mundo num desenho de criança
construir a minha árvore no meio das nuvens
encontrar o amor nas palavras a preto e branco
queria ser deus outra vez
para poder estar escondido do amanhã
dizer que estou triste com alegria
dançar ao som da luz da noite
queria ser deus outra vez
deixar de ser aquilo que é teu
deixar de escrever a tristeza mentindo a poesia
ser apenas...um pescador, um barco, um céu
Vitorino Coragem
Fim dos anos 70, principio dos anos 80. Século XX. O mercado da arte na Europa e Estados Unidos começa aos poucos a dar sinais de saturação em relação ao que se vem produzindo até então. As novas vanguardas dos anos sessenta e setenta começam a dar sinais de quebra. Depois de 30 anos de Conceptualismo (termo onde se podem englobar todas as tendências avant-garde da altura), em que o panorama artístico era dominado por várias tendências conceptuais, as quais tinham em comum o desejo de superar a pintura, começa a existir um movimento de regresso à denominada pintura-pintura.
As vanguardas dos anos sessenta e setenta tiveram como principal fonte de inspiração o Dadaísmo. Marchel Duchamp, famoso pelos seus objectos ready-made, foi o grande impulsionador deste movimento. Defendia a superioridade do pensamento do artista em relação à execução da obra, como se a obra existisse já na mente do seu criador. Deste modo, dava primazia à ideia em detrimento da materialização da mesma, a qual aconteceria apenas para benefício do espectador.
No apogeu do Conceptualismo, o artista passava mais tempo a escrever à maquina do que no seu atelier, e as galerias, por vezes tinham mais livros para vender do que quadros.
Tudo isto devia-se ao facto de a arte conceptual dar mais primazia à ideia do que ao objecto material. Deste modo, sendo este secundário, é exigido ao observador uma participação intelectual, menos emotiva ou contemplativa, de modo a descobrir o sentido do que lhe é apresentado.
As novas figurações surgem precisamente como o oposto de tudo isto. Surgem como uma necessidade de voltar atrás, á pintura propriamente dita, com tudo o que de novo isso poderia trazer. Este movimento teve tantas denominações como os diferentes países onde surgiu: Novos Expressionistas ou Novos Fauves na Alemanha, Trans-Vanguarda em Itália, Bad-Panting nos Estados Unidos e Figuração Livre em França. Em comum, o já referido regresso à pintura-pintura, ao cavalete, à paleta, aos pincéis, às cores a óleo. Os artistas representantes deste movimento, demonstraram um retorno às preocupações politico-sociais, à questão da sexualidade, ao humor, às expressões mais populares, sendo estas transmitidas para a tela. Dão primazia à figuração, á fantasia, à liberdade de expressão com formas familiares em vez da abstracção e do conceito.
Este movimento surge também como um verdadeiro milagre para o mercado da arte, pois as galerias já não tinham praticamente nada para vender. Desta forma, alguns dos representantes da figuração livre saltam para as galerias e começam a ser as estrelas do momento.
Esta nova forma de expressão está directamente relacionada com alguns dos movimentos estéticos anteriores, tais como o expressionismo, o grupo Co.Br.A. (Coopenhaga, Bruxelas, Amsterdão), a denominada Arte Bruta ou mesmo a arte popular, ao mesmo tempo que vai buscar a sua inspiração à cultura dos jovens, à cultura popular dos mass-media, a fenómenos como a banda desenhada, à musica rock, ou ao vídeo. Enfim, toda uma cultura emergente que serve de base a este movimento. Neste contexto, importa também destacar, a cultura da arte de rua ou a arte urbana à qual as novas figurações estão directamente ligadas: o graffiti, os Tags (espécie de assinatura, onde o autor tenta apenas deixar a sua marca, sem qualquer intenção de fazer uma obra de arte), os Pochoirs (técnica em que o negativo de um desenho ou fotografia é afixado numa parede), as casa ocupadas funcionando como ateliers colectivos ou individuais. Este tipo de expressão (que por vezes ainda não é considerada arte entre nós) surge nos anos 60 em Nova Iorque, acabando por atrair a atenção de todo o universo artístico. Esta, manifesta-se nos corredores do metropolitano e nas paredes dos bairros degradados, acabando mais tarde por ser absorvida pelas galerias e pelo mercado da arte. Jean Michel Basquiat é o mais ilustre representante deste movimento nos Estados Unidos. Na Europa, este tipo de expressão está também intimamente ligado às novas figurações, sendo vários os exemplos de intervenções colectivas ou individuais, nos metros e ruas de cidades como Paris ou Berlim.
A figuração livre é então um retorno renovado à pintura, podendo esta ser quase naif, primitiva ou mais elaborada. Representa a vontade que o artista tem de se exprimir através da matéria, da cor, da figuração, de comunicar aos outros aquilo que o preocupa, de demostrar que a arte não deve estar confinada somente aos museus e às galerias. O homem comum também é capaz de fazer, compreender e admirar a arte do seu tempo.
Amendo Hugo Seismãos & A. Xavier
Sexta-feira, Maio 14, 2004
A cabeça está na lua
A bolacha estala na minha boca
Enquanto o sol começa a desaparecer
Nos meus olhos vejo o sonho de ser algo
Que não sei definir por enquanto
Sei o que sinto e isso não me chega
Pretendo abarcar o todo
Mesmo que depois chegue à estupidinteligente
Conclusão que o todo é o nada
-Não interessa. O dia é belo, a noite é sublime
Tudo se interliga em grãos de areia com toques de noite
Quero que o mundo se transforme em som
Que a chuva se perca pelo caminho e vá molhar a nuvem
De onde veio sem pedir licença
A bolacha está na minha mão
Aos poucos o pacote vaza em suspiros de vazio com açúcar
Amarelo como o sol que nunca provei sem ser com a pele
Amanheço em dois quartos de mim com doce de morango
Amanhã vou finalmente à lua
A nave parte às três da tarde e o único tripulante
Sou eu, o que quer ver o mundo do lado de fora
Sem avessos que confundam o pensamento
Vou sair devagar e depois saltar sem cabeça
Apenas com pés e mãos, descerei pela corda
Que me trará de volta ao mundo que conheço
A cabeça por lá ficou, sorri para os seres que vê
É apenas uma cabeça, a minha cabeça
Tenho lá os olhos, a boca, o nariz, as orelhas
O cérebro através do qual penso os mundos
Invisíveis como agora ela é para vocês
A minha única certeza:
-não a irei buscar
A Xavier
A tarde como o fundo do mar
Estou sentado no sol e penso:
(Enquanto observo dois ou três planetas girar)
A tarde tem um pouco de ti
Basta-me isso para gostar dela e a deixar
estar comigo enquanto juntos
-eu e a tarde- esperamos pela noite
Entretanto eu espero por ti, sem a tarde
que espera pela noite e que sabe que
não espero por ela porque espero por ti.
Apesar de não ter o teu sorriso e de não me dar a mão
gosto de passar com ela o que ela é – a tarde.
As tardes são diferentes, são escadas antigas
com um só sentido, onde os navios à deriva se deitam
enrolados em gatos muito velhos cansados de não fazer nada
A palavra tarde pouco nos acrescenta ao que ela é
De tarde, à tarde, pela tarde, espero e ela passa devagar
Porque no fundo a tarde divide-se e multiplica-se
por si própria desde o inicio do mundo
até ao fim do mundo que é o inicio de tudo
Fiz com ela um pacto. Ensinou-me o caminho
para o fundo do mar. Fica perto do horizonte
Lá onde o sol espera por ela todos os dias
E eu disse-lhe que ela tinha algo de ti
E ela disse-me que não, que era apenas a tarde
que desce sobre os homens e gatos e cães desde sempre
Porque às vezes a tarde és tu, o fim de tarde
Que me começa de olhos fechados todos os dias
As palavras são cores que me ficam nos olhos
sem letras, só olhos, só brilho, só sonho
Depois entro na agua pela tarde dentro sem a tarde
que fica à superfície com o sol, juntos a fecharem
a janela do dia e acenderem todas as estrelas, uma a uma
que estão – também não sabia- disse-me a tarde
numa espécie de pano cozido à mão que juntos estendem
sobre uma parte da terra deixando a outra a descoberto.
E tu apareces como se tivéssemos combinado
E sorris como se nos conhecêssemos desde o inicio do tudo
que é uma palavra sem sentido que mas que gostamos de dizer
E eu levo-te comigo e juntos despedimo-nos da tarde e do sol
que já mal se vêm, atarefados com a noite-pano de estrelas
estendido sobre o mundo, muito antigo e redondo
E quando entramos no mar já é escuro e o silêncio
nunca deixou de lá estar, à nossa espera
E eu guio-me pelos teus olhos
E tu guias-te pelos meus que brilham tanto
quase tanto como tu, e o silêncio sorri para nós
E fala como o mar, que é como quem diz devagar
Depois volto à superfície e tudo está na mesma
O mesmo céu, a mesma impressão de tudo igual
As pessoas sempre pessoas, cada vez mais pessoas
subtraídas de si próprias como se cá fora não se respirasse
o ar daquilo a que chamam vida. No entanto é noite
Não me lembro de nada, apenas tenho
a roupa molhada e estou feliz
Não me levem daqui nunca mais
Deixem que volte para o mar, lá sou sereno
Debaixo de agua gosto das cores azuis e estou mais
Perto do sol subaquático que mandei plantar
No teu quintal quando ainda não te conhecia
Então veio a chuva e com ela os sapos
que eram a agua ou alegria do mundo
E choviam letras e com elas as pessoas
construíam palavras que ofereciam umas às outras
e deixavam-se estar no meio da chuva
que era a vida a começar
Depois fez sol, quem o fez não sei
Basta-me saber que ele existe e então
sei que tudo está bem e que pela tua
mão serei o fundo do mar
onde pela tarde viajo
até o sol se pôr
A Xavier
Conversa com um astronauta
Astronauta de ir e vir,
Dá noticias nossas a outros mundos.
Diz que a terra continua antiga.
Que substituímos a lança pela espada,
A espada pela metralhadora,
A metralhadora pelos tanques de guerra,
Os tanques de guerra pela bomba atómica.
Diz aos teus amigos extraterráqueos, se é que são teus amigos,
Que quem lançou a bomba atómica, as bombas atómicas,
É quem trata da paz na terra, quem decide se se faz a guerra
Diz que por cá também há sonho e riso e crianças que amanhã,
Serão homens, talvez iguais aos de hoje.
Que há quem lute e se deite a dormir,
E viaje de noite pelo mundo outro por descobrir.
Diz que temos sempre alguém a mandar por nós
e a dizer-nos o que será melhor para nós,
Que é o que é sempre melhor para eles.
Conta-lhe que temos mar e peixes, mas que o sujamos até o matar,
Que destruímos arvores e espécies animais,
que tu por muitos milhares de planetas
que visitasses nunca encontrarias.
Diz-lhe que aqui há vida e morte, sempre sem parar,
Que temos inteligência e estupidez
nem sempre em equilíbrio,
Que temos cores e sons e cheiros, e temos olhos e ouvidos e narizes
E cérebro mas que muitos de nós têm preguiça ou nunca
O quiseram utilizar. Diz que há leis na terra e leis no céu mas
Que de lá nunca vêm noticias nem sequer em forma de milagres.
Diz que há mulheres belas como estátuas que nos fazem sonhar a nós,
Que todas elas são belas, e que andamos com elas de mãos dadas por todo o lado.
Diz que há lábios e risos, que o riso deve ser um dos sons mais raros do universo,
Tal como o som das palavras que não são iguais. Que há palavras que são ditas
Quase sempre em vão, que quase já ninguém acredita nelas e que quem acredita
Lhe é oferecido a palavra de louco ou poeta. Apresenta-lhe a amizade, a alegria,
O amor e a fantasia, porque as outras se ele estiver atento já as deve conhecer.
Diz que há estrelas que se vêm melhor cá de baixo e também temos sol, talvez o mesmo
Sol que o aquece. Temos lua que enche e vaza como uma flor, temos manhã e tarde
E fins do dia que vêm sempre á mesma hora.
E que temos formigas, insectos, plantas, casas que podem ter a forma que nós imaginarmos, que a isso se chama arquitectura.
Fala-lhe da arte.
Das histórias infantis, de como há adultos que nunca deixam de ser crianças aos olhos de outros adultos,
que passam a vida a escrever, a pintar, a desenhar,
por vezes sem ter o que comer. Que há poetas, que há um que disse que o sonho comanda a vida, que falava a serio,
que não era para rir.
Temos tudo isso e muito mais, diz-lhe,
diz-lhe tudo o que te disse por favor.
Astronauta, percebeste?
A Xavier
A ultima palavra
Aqui estamos juntos com o tempo
Escuto tudo o que passa mesmo se não se passa nada
Á minha volta gira uma calma que não pedi
Dentro de dias é outro mês
Comigo o mundo sempre girou bem redondo
Nunca o impedi de dançar à minha volta
Prefiro estar parado num cais
Como um navio sentado dentro de uma casa
Gosto. Gosto das coisas. De algumas coisas
Das serenas e suaves que me fazem cócegas nos lábios
Das tardes que passam sem darem por mim
Gosto de estar invisível como o ar sem vento,
Gosto de estar ao pé das pessoas, de algumas pessoas.
Deixo-me poisar nas ideias sem as querer prender
Depois apoio o queixo na mão e a boca fica
Quase tapada. Assim não terei de falar com ninguém
Apenas comigo, conversas que duram anos e anos
Onde as palavras são reinventadas e cozidas com fios de seda
No meu pensamento cansado. Sou a musica que te faz sorrir, sou um piano
Sem teclas que não quer ser tocado por ninguém.
Penso na mesa que é alta como tu, e sou a cadeira onde me sento zangado
Utilizo os dedos para escrever, em vez da boca para falar
Nunca me aproximei da essência da agua, que faz 70% de nós
Prefiro estar indefeso, ser um peixe na rede, ser o basco de pesca,
Ser a imaginação que te pertence. Estas aqui na imagem que é tua
Fico uma palavra, penso numa palavra, que nunca aparece, as palavras nunca morrem
Nem vivem para sempre, pedem-nos para serem inventadas.
Multiplicam-se como gotas de chuva até secarem na nossa boca.
Falo comigo, e ignoro o que me digo. Não me interessa se há sol na rua.
Depende da rua, depende do sol. Hoje vou inventar tudo de novo.
Mais uma vez. Até descobrir a palavra certa, a ultima palavra que será dita
Pelo ultimo homem na terra.
A.Xavier
Desenho o sol num pano antigo
És celeste como as manhãs por nascer
Como um sol longínquo que nos aquece
Um ramo de flores sem voz em silêncio
Como a agua da chuva és vertical na queda
Espero-te agora nos meus braços estendidos
Uma arvore sem folhas nem botões desprendidos
O sal de quem não pretende subir contigo
Um insecto com mil patas passou sobre nós
O sol dizia que não chegava a sorrir
Como um peixe esperei vir à tona
Ninguém me respondeu de imediato
Vi muros apodrecidos com ofertas aos pássaros
Chorei as vozes que sonhava ouvir
Tudo em mim era meio dia no verão
Não consegui subir para o telhado do pensamento
Espero agora por uma nova estação
Deposito pedras e pedras como barro por criar
Uivo à lua quando o dia nasce,
E eu morro.
A.Xavier
Desenho o sol num pano antigo
És celeste como as manhãs por nascer
Como um sol longínquo que nos aquece
Um ramo de flores sem voz em silêncio
Como a agua da chuva és vertical na queda
Espero-te agora nos meus braços estendidos
Uma arvore sem folhas nem botões desprendidos
O sal de quem não pretende subir contigo
Um insecto com mil patas passou sobre nós
O sol dizia que não chegava a sorrir
Como um peixe esperei vir à tona
Ninguém me respondeu de imediato
Vi muros apodrecidos com ofertas aos pássaros
Chorei as vozes que sonhava ouvir
Tudo em mim era meio dia no verão
Não consegui subir para o telhado do pensamento
Espero agora por uma nova estação
Deposito pedras e pedras como barro por criar
Uivo à lua quando o dia nasce,
E eu morro.
A.Xavier
O pintor K!m Pr!su
K!m Pr!su (Joaquim Borregana), nasceu em Portugal em 1962, na Aldeia da Dona, distrito da Guarda. Com nove meses é levado para França, tendo passado toda a sua infância e adolescência neste país. No entanto, deslocava-se à sua terra natal, com regularidade nas férias de verão.
Nos anos 80 em Paris, acompanha o nascimento das Novas Figurações, dando origem com Quim P. (Joaquim Pereira) ao conceito de Nuklé-Art, sendo mais tarde criado o grupo “Nuklé-Art”, em conjunto com Kriki (Cristian Vallé) e Paul Etherno. Este grupo defendia uma arte mais pura e simples, por oposição ao vazio imposto por décadas de arte conceptual. A sua pintura é caracterizada por ser mais colorida, figurativa, com conteúdos sociais implícitos, estando intimamente ligados às correntes da Figuração livre, aos Media Peintres, ou ainda à Computer Art. K!m Pr!su é referido em catálogos de exposições e textos de arte, como fazendo parte do movimento da Figuração Livre. No entanto, este pintor prefere dizer que a sua arte é Videomatik, termo que ele próprio inventou para definir o que faz.
Para tornarem conhecido o que faziam, este grupo de jovens artistas começa a instalar obras nas ruas e no metropolitano, sempre com a consciência de que não queriam fazer vandalismo, apenas arte, arte para todos. Para Kim Prisu, tratava-se de levar a arte às pessoas que todos os dias por ali passavam, destruindo as redomas de vidro onde na maior parte das vezes a arte está encerrada, pois “a maior galeria de arte é a rua, basta ter olhos para ver, não é preciso ter dinheiro”. Considera também que o artista se deve mediatizar a si próprio, “não devendo ficar quietinho no seu atelier, à espera que algo aconteça”. Através destas acções de rua, começaram a tornar notório o trabalho que desenvolviam, apesar de a sua postura ser assumidamente contra-cultura. De 1984 a 1987, funcionaram como uma empresa, como grupo estruturado, sendo que em 1986 saltaram para o mercado oficial da arte, tendo K!m Pr!su a sua obra repartida por diversos coleccionadores privados, principalmente na zona de Paris, bem como em alguns museus, como o Museu Internacional do Grafitti. A multiculturalidade de Paris está bem presente na sua obra, a qual revela o gosto por outras culturas, adquirido através do contacto com pessoas de diversas proveniências.
Em 1994, apresenta pela primeira vez o seu trabalho em Portugal. Através de um coleccionador suíço e da galeria de Arte Cristophe, expõe no Clube Arte 50, em Lisboa. Em 1996 regressa a Portugal, residindo actualmente em Pinhal Novo. Nesta localidade, foi lentamente tomando contacto com as pessoas e com as actividades culturais que por lá se fazem. Foi desta forma, que conheceu a Cooperativa Cultural PIA, onde hoje é já um colaborador activo. A sua exposição integrou-se no ciclo de exposições mensais desta colectividade.
Aos poucos as paredes começaram a encher-se de cores, formas e palavras. O verde e azul do espaço PIA, começa a ser invadido por estranhos personagens, habitantes das suas telas, unidos entre si pela pessoa que os criou. Entre eles, há um que grita em silêncio, não mais parou de gritar, audível a um ponto que chega a perturbar. Da sua boca saiam (ou entravam?) pregos. Um grito de revolta, o primeiro grito e o ultimo, talvez um eco de alerta para o que a irracionalidade humana pode provocar.
Os quadros de K!m, convidam à conversa. Fazem-nos perguntas e depois não as respondem. Dizem-nos para os olharmos com atenção, que havemos de descobrir sempre algo mais. Fazem lembrar raras pessoas que nos podem surpreender. E estes quadros dizem mesmo muito. De várias maneiras. Dizem, se observados de longe, que são um todo, numa harmonia conseguida através da forma, cor e movimento, ao mesmo tempo que nos puxam para perto de si. Dizem mais perto, quando com eles iniciamos um diálogo quase em sussurro. Contam-nos a sua história através das letras, caligrafias com que Prisu nos leva ao(s) significado(s) dos seus quadros. Descobrimos segredos, ideias, convicções, sobreposições e enredos. Maneiras de ser e de estar num mundo que terá sempre tanto para descobrir e admirar. E depois a energia, a luz, a vida que lhes preside. Como se fossem feitos devagar, sem regra que não a de serem eles próprios, alheios a relógios cinzentos, que nunca tiveram direito a estar no pulso do autor.
De facto, quem quiser contemplar a pintura de K!m Pr!su tem de ver mais do que simplesmente olhar. E um dia só não basta. Por vezes as suas telas são tímidas, não nos dizem tudo à primeira, é preciso ter paciência, insistir, ler nas entrelinhas, literalmente. E foi isso o que algumas pessoas que visitam o espaço PIA fizeram. Deixaram-se conduzir pela curiosidade, motivados pelo que queriam ver. Um pormenor interessante: quase sempre o artista estava presente, disposto a servir de guia a uma viagem ao seu mundo. Desta forma, algumas noites no espaço PIA foram passadas a abordar a pintura exposta, numa interacção entre um publico que se mostrou interessado e um pintor que gosta tanto de ensinar como de aprender. Para K!m Pr!su “a arte é uma coisa interactiva”, sendo “uma forma de comunicar aquilo que não se pode comunicar por palavras, porque nem tudo se pode explicar por palavras”. Revela-nos que lhe dá uma grande satisfação falar de arte com pessoas que normalmente não falam de arte e deixar os seus quadros serem apreciados pelas pessoas comuns, não por críticos de arte profissionais, ouvindo com atenção aquilo que elas tem para lhe dizer. A sua pintura é feita de poesia em estado puro, numa mistura de cultura urbana com os campos da sua infância, onde por certo a luz reinaria. Descobri-la é tornarmo-nos arqueólogos das telas, buscando sempre mais um pormenor a cada olhar: uma palavra emprestada de um poeta, uma figura que não se tinha reconhecido ao longe, uma cor escondida, a referência a um acontecimento recente. Depois afastamo-nos, olhamos de longe e tudo isso desapareceu. O que fica é uno: equilíbrios seguros, contrastes suaves, letras que se transformam em traços, linhas e ritmos, cores fortes e intensas. De resto, a sua predilecção por cores puras (diria musicais), já lhe valeu o apelido de “o pintor eléctrico”.
Por fim, percebe-se que a sua arte traz uma mensagem. Fala-nos do bem e do mal e de como nós somos responsáveis por ambos. Diz-nos que o mundo que temos pode ser bem melhor. Basta querer e não ter medo de sonhar. Uma arte para todos os que têm olhos para ver através da alma, um dicionário das cores e da luz. Deixemo-lo então dançar, e sobretudo pintar, em várias vibrações!
A Xavier
A buganvília espacial
A buganvília plantou-se aos poucos no quintal
Como chegou ninguém soube
Perguntou se podia ficar ao mesmo tempo que quase secou
Os pássaros falaram entre si demoradamente
Por fim aceitaram-na em segredo com reservas demoradas
Cresceu devagar confiante de si mesma
Abriu caminhos entre os ramos de heras ancestrais
Hoje em dia continua a crescer
Tem sede de agua ao fim da tarde quando a lua aparece
É já mais alta do que os homens e tem vaidade nisso
Sonha poder dar sombra ao seu corpo
Observo-a lentamente com as mãos sem olhar
Tem já flores lilazes-céu de orgulho seguro
Deixai-a estar suave e sincera
O muro é seu aliado, firmaram um pacto secreto
O seu dialecto só as magnólias e malvas entendem
Ali está ela suave deitada verticalmente
Sobre a luz tardia de Abril em fim
No seu canto casa quintal
A Xavier
Condição Humana
Por vezes a claridade afasta o medo
Então a minha cabeça circula livremente
Sonho sobre o fantástico areal absoluto
Uma outra coisa para lá do mundo
Os campos da infância imigram como os pensamentos
Os pensamentos existem como pétalas de rosas
Que vão caindo e secando um a um sem parar
Por vezes voam para longe sem a ajuda do vento
As coisas vão e vêm como estações do ano em repetição
A morte acompanha a vida finita que nós somos
-Nada o é sempre
Como o mar enche e vaza
Sei que houve pessoas antes de mim
Hão de haver depois e depois para o todo da condição humana
Somos apenas um grito ou um riso audível à nossa dimensão
Para lá do nosso mundo existem formigas
As ausências são esperanças por cumprir
O rigor é igual ao tempo medido em minutos, segundos e horas
Circulamos todos num planeta-nave à volta do sol
Hoje é verão como a água da manhã
As vozes prolongam o nosso corpo
Como a vida se prolonga em montanhas imensas
De girassóis brutais esquecidos de girar
Sinto o tempo passar como bolas de sabão
Existo na atmosfera circundante do que devo explorar
O limite é o que somos, não o que seremos
Como um balão que sobe até onde lhe é possível chegar
O silêncio acalma-nos até ao fundo do mar
-Quero o silêncio absoluto interrompido nuclear
O tecto como chão para andar
O riso como uma máquina de registar
No fundo do fundo do que somos
Há sempre um eléctrico amarelo que passa
Um som de loucura impossível e transparente
Como a eternidade
-Que não faz parte de nós
A Xavier
Os cães sem sol
Os cães têm patas
Quatro tenho contado
Os cães ladram
De forma diferente tenho ouvido
Ouço primeiro
Depois escuto
Percebo depois
Entendo por fim
Os cães são leves
Tocam a terra, o chão
Gostam de ladrar às gentes
Avisam para dentro de nós
Pensam em código
Julgam apenas com ar
Defendem o silêncio
Das árvores em ramos sem vento
Depois é tê-los
Olhá-los com ver
Reluzem com sol
Espelham-se em nós
Apagam-se de noite
-Como os bois
Apagam-se de noite
-Como os sóis
A Xavier
O tudo e o nada
Entre o tudo e o nada
Existem folhas em branco
Aguas da chuva salteadas
Sapatos que se calam
Como quem tem uma ideia
Entre o tudo e o nada
Existe o neant de Sartre
O nada absoluto que é o escuro
Chaminés com fumo sujo e colorido
Entre o tudo e o nada
Existem pássaros que voam parados
Cegos que anunciam a luz
Libelinhas esmagadas ao fim da tarde
Entre o tudo e o nada
O livro da vida por escrever
O nada para lá de nós
O tudo do que se quer ser
Entre o tudo e o nada
Um elefante-insecto ao sol
Um grito que anuncia
A diferença desigual abismal
Entre a noite e o amanhecer
A Xavier
O som e o ser
Centro a atenção
Nos meus ouvidos...
O que ouvem eles?
O que ouço eu?
Ao longe um galo
Menos longe pássaros que não vejo
O som tem a ver com a leveza do vazio
O silencio é amigo do fim do mundo
O que ouço não é o que vejo
O que vejo imagino que ouça
Som interior distante
Memória sonora imediata
Nas imediações ligeiras do que sou
Sonoridades invisíveis a olho nu
Pés descalços na areia do meio dia
O toque da pele ao ouvido inquisidor
Sempre o som primeiro
Sempre a audição incolor
Sempre a vontade de explicar
Sentir primeiro, depois ouvir
Abstracção auricular
De um tempo já passado
De um tempo sem som
Audível apenas na memória
De quem o fixou
A Xavier
Estar apenas
A sombra da arvore alta nunca me pareceu uma sombra.
Por vezes eu pareço-me mais com ela do que a própria arvore que vejo.
As ruas nem sempre têm janelas viradas para nós.
Aos poucos vamos aprendendo que a luz tem nomes e cores que não conseguimos dizer.
As arvores que sou estão todas dentro de mim como um avião que pertence ao céu sem Voar. Nunca quis mais do que ser simplesmente um olhar para fora da janela em que Estou. Tenho saudades de caminhos que encontrei quando caminhava pela noite à tua
Procura. O mundo deslocava-se ao meu lado ansioso por novidades.
Agora tenho claridade a mais no verbo de pensar.
Quero sombra no pensamento, agastado pelo sol da curiosidade.
Quero a sombra da arvore alta como um corpo que não toca o chão.
Olho para cima e não me vejo a flutuar, sentado nos teus ramos
Procuro. Não pensar em nada como um búzio não pensa o mar que o contém
Não busco a razão das coisas por explicar.
Como a luz de um candeeiro no alpendre da casa antiga se limita a iluminar
Quero apenas estar na Terra
-Deixando-me estar-
A Xavier
Duvidas
Quero assobiar a voz que tenho no meio da cabeça
Quero saber o peso do sol á volta dos astros suspensos
Quero pensar uma arvore com folhas cheias de nadas
Quero viajar em navios já afundados
O dia está no fim mas não acaba agora, eu prolongo-o no que sou
Há milhares de anos que existo, sou um circulo abstracto
O sono permanece ausente numa repetição que me acalma
O sangue talvez estale em nós quando chegamos ao fundo do mar
Tento pensar os peixes sem pensar na agua
Como quem pensa uma noite sem escuro
O meu ser é finito como a matéria do universo que desconheço
Quando os pés não tocam o chão sinto que é possível
Tocar os teus lábios com os meus, em silêncios florestais
A sombra refresca a luz do sol que contém todos os olhos do mundo
Não quero mais o lento evoluir da duvida que me fascina
Sem espaço para voar não faz sentido duvidar das coisas
O meu barco carrega avenidas de panos coloridos com poemas escritos devagar
Sou o sol do mundo que gira à volta de ti
Através das tuas mãos construo o barro
Que me modela os desejos
A Xavier
Cidade Imperial
Sou a cidade que nunca dorme.
Num cérebro atento procuro agulhas de papel
que furem a memória como vidros partidos ao meio.
Gosto de silêncios amadurecidos pelo medo,
ondas e ondas que nunca chegam ao fim.
Ao longe as muralhas erguem-se sobre arvores antigas
que ficam do lado de fora de tudo o que é real.
Aqui o sentido não existe, quem o procurar apenas se perde
a si próprio. Nos muros de cal há sangue que escorre feliz
enquanto espera que o sol o seque ou derreta.
Á tarde, gatos com trelas passeiam os seus donos
tudo parece começar como se o dia não existisse.
Para quem quiser entrar os portões estão abertos,
Grande madeiras pintadas com flores de todo o mundo
-Os seus guardas há muito que abandonaram o local.
Diz-se que está deserta, não há vento nem sobra entre as paredes erguidas
De cima para baixo. Milhares de sois talvez existam para lá da nossa pequenez
Sorrisos, olhos, bocas diferentes da minha, que reconheceria
Num instante. Outras cidades por inventar, muito para lá da imaginação
Degradante. O que já existe e renuncia a ocupar o seu lugar morreu
-Anuncio a partir de agora a lei marcial
Uma flor sobe ao poder pelo seu próprio pé
Acredita numa razão antiga só partilhada
Pelas plantas e algumas luas de Júpiter.
Sem povo para comandar, bastasse a si própria
Como o primeiro homem na Terra.
Como a primeira mulher e o seu beijo
Inicial. Tudo é fabuloso na sua existência solar
Como eu, a cidade imaginada
Nunca será descoberta
A Xavier
Viagem Nocturna
ao
País da Amizade
Lua Cheia, azul claro
Noite quase dia
Sem madrugadas por enquanto.
As ruas dormem de pé
Apoiadas em prédios com medo da cor
Ao lado de candeeiros
Ainda há pouco acordados
Ninguém passa. Agora a rua é!
Pertence à luz cheia da lua igual
Palavras ecoam no espaço parado
Prolongando o silêncio geral
Levam mensagens, ideias, pensamentos
Em copos de vidro com ar
Faz-se a ronda de nós próprios
Sem deixarmos rastos de sonhos
Que por fazer estarão sempre
Conversa-se, discute-se.
Por exemplo:
- O que é, o que não é,
Não deve ser, como é, Porque sim, talvez, penso que sim,
Não penso assim, concordo,
Não sou, tenho a ideia que,
Talvez, penso que não, como?
Inícios repetidos em relógios parados
Ondas ao contrário de um mar vazio
Há falta de Eus no mundo, explico:
Eu sou, eu faço, eu quero
Mas ser mesmo, fazer mesmo, querer mesmo
O défice de Eus leva ao acréscimo de Tus
De onde resultam Nós sem verdade
Entretanto a noite estelar cá está
Como prometeu chegou
Com lua cheia
Sem gente vazia
Sons de longe chamam o vento
Bom dia ó noite fria
Depois, agora, durante
Falar, trocar ideias
Afirmar enfim para terminar
-“Eu cá não sou de separar, sou de unir
Não sou de partidos, sou de inteiros”
Boa noite. Até amanhã.
A. Xavier
O tudo e o nada são irmãos
Quando o Sol brilhar em marte
Quando o mar chegar a Moscovo
Quando o céu tiver um avesso
Quando o riso for o principio
Quando os insectos crescerem
Quando os pássaros forem asas com arvores
Os homens mover-se-ão demoradamente em círculos abstractos
Festejando ano após ano o regresso da primeira vida
Primavera de fins de tarde com infância demorada
Entre o sol e o sonho de si próprios
Principio absoluto da revolta infantil
As flores levitarão em volta da chuva leve
A terra mergulhará em baldes de nada com um pouco de tudo
Todos acreditarão em elefantes-insectos abismais
As aguas ficarão ligadas entre si por peixes independentes
O ar poderá finalmente voar sem vento
Os navios navegarão sem mar pelo mar adentro
A industria será das formigas verde escuras e das cigarras amarelas
Os homens revoltar-se-ão com alegria
O universo cavalgará sobre cavalos gigantescos coloridos e infinitos
O mundo será igual ao principio de tudo que é o nada
Ninguém mais existirá por existir simplesmente
Quando os animais deixarem de falar
Quando os revoltados reinarem
Quando os loucos regressarem
Quando as crianças mandarem
Tudo terá a importância verdadeira
A balança que pesa o peso da vida
O relativismo interior visto através de um copo vazio
A musica dos sem razão nem pão
O nada igual a tudo
O tudo igual a nada
O ser e o não ser
Tudo...
Nada...
Para todo o sempre
Zenon
A casa que eu sou
Habito a casa transparente
Que me habita aos poucos
Arquitectura monolítica ancestral
De promessas incessantes.
Construo-me a mim,
E à casa que eu sou
Enquanto me invento para
Que outros me descubram.
Nas divisões construídas pelo tempo
Opiniões interiores parecidas
Com morais de bem e mal fazer.
Um cérebro-quarto, umas mãos-quintal, um pé no hall
Depois desenho, invento com pedaços de sonho
O exterior como um traço sublime
Invisível e incompreensível aos olhos fechados
Que nunca se abrem para ver.
Sou a parte de fora
Que se vê do interior de mim mesmo.
Não tenho outros materiais
A não ser o tempo, o riso, a cor
Alguns pedaços de lucidez transitória acabados de roubar
Não há data final, nem orçamentos a registar
Construo-me aos poucos
Quando os operários
Que eu sou
Vêm trabalhar
A.X.
O julgamento do gato que se chamava cão
Chegou sem avisar e entrou nas nossas vidas
Deve ter subido os degraus devagar , pouco a pouco
Ninguém o ouviu chegar
Pés de gato na infância são silêncio em estado puro
Olhou para nós, miou baixinho e os olhos viraram-se para ele
Depois, sorrimo-lhe e ele não
Acho que ainda não tinha aprendido o riso dos homens
Aos poucos foi ficando e fazendo amigos
Ninguém sabia a sua história, de onde vinha
Devia vir da chuva ou do sol, que importa
Tinha corpo de gato mas chamavam-lhe cão
Haveria de dizer que isso eram pormenores linguisticos
Sem importância de maior
Era sereno, educado no gesto e reservado
Tinha a coragem de nos olhar nos olhos
Mas só o fazia quando lhe apetecia
Pertencia a ele mesmo e os dias gostavam de passar com ele boa parte do seu tempo
Quando cresceu, foi acusado de crimes capitais
Não podia pertencer ao nosso mundo, era deseducado de mais
Foi a tribunal. Um juiz invisível decretou
Que seria deportado para longe
Ninguém o ouviu, não teve sequer direito a um advogado
Provavelmente também não lhe perguntaram se queria ir
Mas realmente(que digo eu?!) que importa tudo isto?
Era apenas um gato, ainda por cima com nome de cão!
Um gato entre milhares de gatos todos iguais e igualmente chatos!
Viva nós! humanos intransponíveis correctíssimos
Cegos dos olhos e coração
A Xavier
A vaca-cão
(Le vache-chien)
A vaca-cão (Le vache-chien) tem silêncios de ferro forjado à mão
que ninguém procura compreender nem consegue decifrar.
É como um xilofone de pétalas com mil pianos.
Um teatro antigo que dura há dois mil anos.
O seu sorriso é dócil e suave, mostrando o que lhe vai na alma
Gosta de estar sentada nos beirais das casas velhas
com os velhos ao fim do dia.
Abana a cabeça para dizer que sim, mas nunca diz que não
Gosta de ser conduzida pelos campos da infância a pé
-livremente
Abraça as arvores como se as conhecesse
e elas respondem-lhe com vento suave no rosto
A ninguém pertence, nem a si própria
-como a lua e as estrelas que não entende.
Adora contemplar os sons das horas que passam
e consegue distingui-los a todos.
Sabe que foi feita sem encomenda e que por isso
é única como o riso das rãs.
Quando passa na vila pela manhã é vaidosa
no andar sem pressa e gosta de se mostrar.
Prefere o campo nocturno onde faz companhia
aos morcegos das asas recortadas.
Ás aves que vivem de noite diz-lhes bom dia
sempre com alegria.
Abana o rabo como os cães que lhe ladram
só porque gostam dela.
É a vaca-cão com sorriso de campos suaves em fins de tarde
rurais
É a vaca-cão que reflecte quem a fez com as mãos e a alma
de criança
É a vaca-cão que se senta connosco a contemplar o mundo
a girar
É vaca-cão que viaja connosco quando estamos
a sonhar
A Xavier, 2004
Dedicado a Kim Prisu e à sua escultura, a Vaca-Cão
Ainda aqui estamos
Uma conspiração de acreditar.
Em movimento cósmico.
A ponto que chega a perturbar.
Um diálogo em falatório.
Nestes conteúdos sociais implícitos.
Onde nasce a primavera.
Estando intimamente ligados.
O não saber o que nos espera.
As nossas partículas.
Não se encaixilham num sossego.
Nem tudo se pode explicar por palavras.
Há uns que gritam em silêncio.
Verde maio quem te imagino.
No vento que sopra no monte.
Dançar sem sentimento de partido.
Vamos beber em crianças a fonte.
5 de maio 2004 J.A.G.B , KiM PRiSU
Aldeia Terra
Uma aldeia redonda
Em forma de agua
Observatório giratório
Virado para si mesmo
Viaja de modo
Gratuito e ininterrupto
À volta de um pais
Chamado Sol
A Xavier
Sua Majestade a Bomba
Pássaros mudos na floresta
No cimo das árvores
Apenas um leve sopro
Todas as montanhas estão em silêncio
As águas param em peixes á tona
Relógios sem vidros
Recusam o seu dever
As formigas deixam de caçar
Em tudo apenas a matéria
Inerte, inquieta, prolongada
Em átomos de horror canibal
Do riso, apenas a lembrança
Homens poucos, a chorar
Gritos de um universo estúpido
Que da vida se absteu
Ignorância e ganância
Crescei e multiplicai-vos
Eis a humana condição fatal
Sua majestade, a bomba
Reina em silêncio de vida
Esmagadora, sumptuosa
Brinquedo brilhante e apetecível
Nas mãos de todos os homens
António Xavier
A um cão abandonado II
Ontem vi um cão
Cão castanho
Cão quatro patas, rabo alçado
Cão silêncio, com muito para dizer
Lembro-me como se fosse ontem
Cão com vida
Cão capaz de falar, mas sem o querer
Cão dos gatos
Cão das ruas
Cão sem dono
Mil átomos de vida
Condensados em ti, cão do sol
Revolta animal com razão de ser
Cão Chagal, cão Miró
Cão minimal
Cão amante do entardecer
Cão bomba por explodir
Cão sem pão para comer
Cão da terra
Cão da vida
Cão carinho por porvir
Cão naturológico
Sem marca, sem etiqueta
Cão sem orgulho de escrever
Cão por inventar
Agora e sempre
Cão, simplesmente!
António Xavier
Terça-feira, Maio 11, 2004
mentira territorial
encontraste-te sozinha no mar
procuras em mim a tua inocência
lágrima de chuva que não consegue voar
o vento forte espalha palavras pela tua consciência
filha da mais delicada flor de nenhum jardim
peguei-te com medo de te tornares mais bonita ainda
o mundo roda no teu olhar risonho que diz sempre sim
fim do principio de uma carta com vida
o teu corpo funde-se no meu
como se de uma tempestade se tratasse
desci até ti pois estava farto do mesmo céu
as nuvens tiraram-me o prazer de estar triste
gostaria de te dizer muitas coisas
de te fazer sentir tao pouco
sonho protegido por castelos de areia desfeitos
mentira territorial escrita por um louco
a tua pele torna-te nua
como tu só consegues ser
bebo uma lágrima tua
ficando feliz por querer o que não posso ter
Vitorino Coragem
Domingo, Maio 09, 2004
Incondicional dilecção dum homem espontâneo.
Numa noite de vinho e vidas de fumos encaracolados de palavra fugitivas.
Brincamos a actuar o chorar, um poeta está a morrer.
Ver o novo farol em gaivota tecnológica iluminar o céu.
Chamado na comunicação social grande monumento.
Sem essência do dito dia dos cravos.
Procuro nele o Povo companheiro.
Só contemplo uma bela peça de design.
Historias espalhadas em contratempo, se confidenciam e flutuam em
pensamentos.
Adeus especulação bom dia acção de olhos evidentes.
A nossa cultura é o que nós fazemos dela nas suas revoluções, acreditar no
povinho que nos rodeia, existindo em vários estados de espirito e
pensamentos.
O presente leva-nos o futuro da nossa identidade.
Cair de tempo a tempo, perder-se, para melhor se encontrar com si mesmo, e
assim conviver com outros no dia a dia, neste estou aqui flutuante na
inspiração das palavras.
Não há nada a perder, nascemos de mãos vazias moremos de mãos vazias.
Viver um momento para o outro sem antecipação de alma cheia.
Não matem a nossa criatividade.
Os sonhos fascinam os homens desde a aurora dos tempos, os impulso são
incompreensíveis, não se inserem de nenhuma forma na trama da vida real.
Tu entendes, Sempre Na Lua, Realiza as tuas utopias.
Escolher o desalinho mesmo no falar, a liberdade de não saber o que é
correcto ou certo. Pensamento das múltiplas escolas da vida , sem saber o
caminho.
Pinta por gestos a abarrotar o vazio na plenitude da vida.
Com respeito a queda do real, na vida de pão e vinho, de trabalho e
alegrias.
Comentar e crítico, não saber que nos espera do outro lado da porta, do
espelho de nós.
Os homens podem melhorar o seu modo de vida ,viver mais tempo com cada vez
mais conforto, mas muitas vezes passam ao lado do ser.
Viver em aventura fora do conhecido, amar, degustar, conhecer o êxtase de
cada momento presente que nos transporta para outra viagem, no ritmo dum
instante , em múltiplas vibrações .
Eu cá tenho umas que nos vão dar muitas novas sensações.
J.A.G.B. dito
K!m Pr!su
26 abril 2004 pinhal novo
apologia à sede de criar
quero beijar a tua cor, lentamente
através do sabor que despertas no meu olhar
eu não sinto, eu minto...tinto
quero desejar-te ardentemente, até à última gota
nesta vida e na outra
inocente lágrima que faz o teu sorriso\ dinheiro brilhar
eu não sinto, eu minto...tinto
quero mascarar-te de culpa
peço desculpa, minha política\ minha puta
de mentira me queres pintar
eu não sinto, eu minto...tinto
amo a tua verdade
morreste a dar à luz a liberdade
só e contigo quero estar
eu não sinto, eu minto...tinto
queres assaltar os ladrões
resgatar os poetas das suas paixões
o parvo da colina queres sodomizar
eu não sinto, eu minto...tinto
incêndio salvador, deixaste-me apenas uma flor
um planeta solitário, um jardim abandonado
nele eu estou deitado, a imaginar o teu rosto lunar
eu não sinto, eu minto...tinto
estou cansado da minha juventude
queres um pouco, meu velho amigo?
juntos construiremos um lindo deserto\ nobre atitude
eu não sinto, eu minto...tinto
eu não sinto, eu minto...tinto
eu não sinto, eu minto...tinto
Vitorino Coragem
Sábado, Maio 08, 2004
Admirável Mundo Inteiro
Um barco nave a Marte
Pintado em livre figuração
Cruza o céu nocturno
Movido a hemisférios direitos cerebrais
Remam rumo à lua
Viajam no interior do seu avesso
Procuram a imaginação primeira
Afirmam verdades contrárias
E trazem consigo o vento
Com letras escritas à mão
Inauguram a palavra amizade
Poetas e Loucos!
A lotação estará sempre por esgotar
Os remos do barco nave a Marte
São folhas que trocam entre si
Prosam, riem, poetizam
Inventam novas maneiras
De ler Jean Paul Sartre
Pés fora do chão
Dançam no abstracto
De besouros em extinção
Saciam a sede
Do sonho como religião
Levam cães de O’neill
Vinho e pão
Anunciam o som da vida
E buscam a primeira palavra desaparecida
Por vezes à noite
Passam nos quintais
Escrevem nas laranjas
Colocam versos e poemas
Deixam palavras no estendais
Olhar tão profundo
Como um sorriso verdadeiro
Viajam numa nave barco à lua
Rumo ao brilho dos Olhos
Rumo ao admirável Mundo Inteiro
António Xavier
