sábado, abril 30, 2005

as minhas putas felizes

não quero saber se não vou ver a tua cara outra vez
não quero saber se não haverá amanhã
o vento passou por mim e contou-me
o tempo passou por ti e levou-te
como foi tão fácil mudares de opinião
como foi difícil saber a razão
venerei-te como uma heroína
odiei-te como uma inimiga
escrevi-te poemas na tua pele feita de papel
beijei-te vezes sem conta
invadi a Lua
capturei estrelas com uma meia rota
tornei-me militante da tua luta
vim para a rua protestar
mas a tua mão esquerda esteve sempre no bolso
nunca soubeste o que é viver sem esperança
nunca soubeste a importância da sobrevivência
e o povo sempre te desejou “Bom Dia”com um sorriso rasgado
quem és tu para não acreditar na Revolução?
o que fizeste para seres a arte em pessoa?
estou só... em Portugal
este lugar tem o teu nome
aqui plantaste os teus girassóis
satélites feitos de boémia circense
anões que se enfeitam de palavras
letras ocas que o tempo não perdoa
prefiro morrer junto da minha guitarra
como o velho de Picasso
e de tocar as minhas músicas para quem queira ouvir
não tenho medo de não ser conhecido
de não ser um líder de um rebanho
vejo a minha cara outra vez
é mesma de sempre
não quero saber se não haverá amanhã
porque hoje sinto-me um herói

Vitorino Coragem

sábado, janeiro 08, 2005

feliz natal, senhor presidente!

perdi a magia nas palavras
um corpo nu\ a ausência de lágrimas
uma igreja pintada com sangue
onde se misturam onze religiões
a televisão está ligada
o povo está contente
feliz natal, senhor presidente!

uma jovem estação de comboios
destruiu todos os caminhos directos
desenhou mil escadas nos meus olhos
degraus- serpente que condenam os mais velhos
a televisão está ligada
o povo está contente
feliz natal, senhor presidente!

o natal está a chegar
jesus abandonou o maior bordel da cidade
vendeu a cruz em troca de três noites de sexo
depois de ter sentido o vazio no teu olhar
a televisão está ligada
o povo está contente
feliz natal, senhor presidente!

chegou a hora de sorrir
a compaixão está aberta
a publicidade vende o mundo infantil
onde todos os sonhos nascem e morrem num zapping/descoberta
a televisão está ligada
o povo está contente
feliz natal, senhor presidente!

as luzes disfarçam o teu envelhecimento
mais uma árvore no cemitério das eleições
só agora a pobreza faz parte do teu conhecimento
a alegria invade os corações
a televisão está ligada
o povo está contente
feliz natal, senhor presidente!

Vitorino Coragem

terça-feira, julho 20, 2004

precisas
 
precisas...sentir-te vitima para depois sentir amor
 
precisas...de ver a mulher que te venerou mergulhar na dor
 
precisas...de ter filhos, uma família, uma marca registada
 
precisas...de ter tudo para dizer constantemente que não tens nada
 
precisas...de construir um mundo só teu para depois destruir
 
precisas.. de ter animais de estimação que não te possam resistir
 
precisas...de marcar o ponto com um beijo forçado
 
precisas...de te sentir herói num castelo de areia conquistado
 
precisas...de estar sozinho porque ninguém realmente se interessa
 
precisas...de criar inimigos para teres substância na tua conversa
 
precisas...de criar mentiras e risos de felicidade
 
precisas...de te enganar a ti mesmo...não passas de um cobarde
 
Vitorino Coragem

sexta-feira, julho 16, 2004

não tenho jeito para segurar na tua mão
 
 
aqui nesta noite
 
aquecida pela aragem que passa por uma fenda
 
minto para adormecer a minha solidão
 
sinto que nada vale a pena
 
o amor, a amizade, a compaixão
 
o que conta é o estilo...como se agarra a mentira
 
e a figura...
 
ninguém  se lembra da verdade na arte de viver?
 
estou triste
 
amanhã é outro dia...
 
o sol irá sempre na mesma direcção
 
Vitorino Coragem

segunda-feira, julho 12, 2004

!nsónia

Dormir nesta noite branca não consigo.
Procurar as volta da cama que me quer levar com ela para o meu outro mundo.
O vazio inspira-me os sentidos.

Uma folha, uma tela branca.
Comunicar o quê , uma visão.
Será ela nova, ou só uma remodelação do que já foi, do que è.

Mas dormir nesta noite apagada não consigo
Então eu danço para a minha lua companheira.
No silêncio, em partes cantaroladas.

Papel amachucado de traços em ensaio
O que intimar no suprimir dos olhos
Palavras sem coerência

Só queria dormir nesta noite em saída
Nada sei, do abstrair em exclamação pintados no vácuo
Inundado no elixir da uva que de cor serve

Página preenchida de palavras em vento.
Um sopro nas minhas celas cerebrais que ainda me excita mais.
Mas dormir nesta noite consumida não consigo.

K!M PR!SU

sábado, julho 10, 2004

portugal dos artistas

ser artista em portugal
é ser revista, é ser jornal
é ser plástico, cartão de militante original
pechisbeque com sorriso de comerciante

ser artista em portugal
é esticar o salário até ao armistício do tempo
é fugir aos impostos numa lata de conserva
é ter a inocente voz de criança que diz merda

ser artista em portugal
é desejar a morte quando se nasce
é ter uma estátua numa aldeia que foi cidade
é crescer sem elogios...apenas com a ideia da saudade

ser artista em portugal
é ter sobrevivido num país diferente
é ser girassol, se for preciso da lua
é ser distraído, idealista, oportunista, otário...um palhaço de rua

ser artista em portugal
é fugir da agitação político-social
é não gostar de ver futebol e novelas
é vender as suas obras no natal
é não ter prática de acender velas

ser artista em portugal
è viver intensamente com os pais a arte
é pedir um subsidio à mulher e ao estado outra parte
é gostar do jardim de narcisos, de palmadas nas costas
é gastar as palavras ao ponto de ficarem mortas

ser artista em portugal
é fumar ganzas, respirar pó, assinar tinto
é gostar de ser diferente para marcar a semelhança
é ser desorganizado, enjoado, mas não drogado
rejeitar a herança de ser um miserável ser abandonado
é ser infeliz sem bandeira, sem cachecol
eu não sou artista
eu gosto de ver novelas e futebol

Vitorino Coragem

sexta-feira, julho 02, 2004

Ontem foi o Quintas no Jardim

um jardim de cor lunar
filmado por uma câmara distante
a arte de protestar
protegida num coreto cintilante
onde estiveste tu, camarada político?
precisei da tuas mãos para quebrar pedaços de arame
queria ouvir o teu poema critico
não tens medo que a tinta da tua assinatura derrame?
queria contar com a tua presença
no quintas a ler no jardim
pintaste um bonito quadro \ distinta ofensa
as mãos femininas de pilatos não ditam o nosso fim
as autárquicas estão à porta
tu queres uma doce revolução
para que os teus filhos não percam a corda
os suspiros de marx com euros na mão
temos o rotulo de artistas/bobos
bárbaros incuráveis da incultura regional
a melhor solução cultural em tempo de crise para todos
um pouco de respeito para quem se sente imortal
quando escreve e lê
o que farias? por onde andas?
ó santa da procissão
eu amo-te, minha boneca caramela, nesta noite de verão
a divulgação poetica está apenas no meu coração


Vitorino Coragem